Política

O bolsonarismo quer combater seus inimigos com infantilismos patrióticos

A iniciativa do deputado federal Nikolas Ferreira pretende ser uma arma de combate, mas se mostra apenas como mera satisfação militante para o ex-presidente Bolsonaro, enquanto o STF continua no controle da dinâmica política do país.

Nesta última segunda-feira (19) o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) começou uma caminhada como forma de protesto, ordeiro e pacífico, contra a prisão arbitrária do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo STF (Supremo Tribunal Federal), encabeçado pelo atual xerife da Corte Alexandre de Moraes. A condenação do ex-presidente se deu por causa de um troço chamado “trama golpista” forjada num processo totalmente viciado e de forma proposital para servir de narrativa que justificasse todos os abusos e perseguições como vingança contra a Direita e o bolsonarismo. A manifestação, digamos assim, é intitulada “Caminhada pela Justiça e Liberdade”, que começou em Paracatu (MG) com aproximadamente 20 pessoas e alguns carros acompanhando o parlamentar mineiro e aos poucos foi ganhando forte adesão espontânea de vários simpatizantes e apoiadores durante o percurso em direção a capital federal (Brasília-DF). Estima-se que Nikolas e os demais integrantes desta caminhada cheguem a Brasília no domingo (25).

Atualmente a caminhada já conta com um número surpreendente de adeptos acompanhando o parlamentar ao melhor estilo Forrest Gump, como helicópteros, massagistas voluntários, profissionais da saúde para cuidados médicos, pessoas fazendo escolta, além de outros parlamentares do Brasil, enfim, recepcionados com “picanha do Bolsonaro”. Se o intuito foi provocar a ira da Esquerda… funcionou! Vários parlamentares esquerdistas, em especial Lindbergh Farias e Érika Hilton, sumariamente foram em suas redes sociais vociferar suas verborragias hipocritamente construídas para desprestigiar a manifestação e tentar diminuir sua força (o que não deu certo!).

É compreensível as pautas que motivaram esta caminhada, pois é mais uma maneira de chamar a atenção da opinião pública para o atual estado de caos institucional que vive o Brasil, especialmente acerca das atitudes absurdas do STF em invadir atribuições do Legislativo e aplicar ações típicas de justiçamento. Mas é preciso analisar certos pontos aqui bem incômodos, pra dizer o mínimo, que revelam uma infantilidade ou amadorismo da Direita bolsonarista no campo de combate.

Há dois aspectos cruciais distintos nessa caminhada: o aspecto eleitoral e o simbólico. O primeiro serve para arregimentar a militância exaltando palavras de ordem, reforçar objetivos, conquistar mais apoiadores e fortalecer a imagem política do próprio Nikolas (como uma espécie de sinalização de virtudes), ampliando seu capital eleitoral para uma possível candidatura ao senado nas eleições deste ano. O segundo aspecto é mais para animar a massa militante bolsonarista com altas doses de dopamina para que não esmoreçam e percam a esperança. De qualquer modo os dois aspectos ilustram a mesma coisa: não surtem efeito prático!

A Direita precisa combater o problema de forma direta, sem silogismos panfletários, sem paixão ideocrática e com instrumentos de luta eficazes, do contrário será mais uma iniciativa sem peso, insípida e apática apenas para dar algum sentido ou justificativa política para uma claque militante – tal como foi aquela impetrada pelo MBL em 2015 e que foi um estrondoso fiasco. Parece que a Direita insiste em baboseiras deste tipo como se fosse algo necessário para restaurar a ordem constitucional. Parece que encaram a situação como se fossem uma tropa romana marchando armados contra os inimigos para lutar. Ora, Brasília é justamente onde está o problema, pois os agentes responsáveis pelo terrorismo institucional que solapou nossa democracia controlam os organismos de Poder de lá. Logo, não adianta caminhar até o ninho da cobra só pra dizer que não gosta dela… e voltar pra casa.

O que mais espanta é que outras iniciativas similares estão sendo organizadas em todo o país. Há manifestações da Direita contra as arbitrariedades, abusos e ilegalidades cometidas no julgamento de Bolsonaro, mas ao mesmo tempo estão pedindo a prisão humanitária (em casa) do ex-presidente. Ou seja, é ilegítimo a prisão de Bolsonaro, mas queremos que ele vá cumprir sua pena em casa. É o mesmo que pedir anistia das pessoas presas pelo 08 de janeiro quando se sabe que houve vandalismo e não crime punível com prisão.

Os defensores de Bolsonaro rebatem as críticas dizendo “os próprios advogados do ex-presidente estão pedindo a prisão domiciliar”. É preciso entender que do ponto de vista jurídico os advogados defesa de Bolsonaro só podem pedir prisão domiciliar para seu cliente em virtude de sua saúde fragilizada, até porque todos os demais pedidos e recursos foram rejeitados ou negados e não tem mais instância jurídica superior pra recorrer, pois o problema é o STF. Já do ponto de vista político, justamente o que motivou a condenação do Bolsonaro, pedir prisão humanitária ou domiciliar é legitimar um julgamento ilegítimo e viciado. É muita estupidez acreditar que algo de reversível possa acontecer com iniciativas tão tolas como estas.

O que tem mais peso: uma caminhada seguida de discurso patriótico inflamatório ou o mandato parlamentar? Óbvio que o mandato, mas pelo visto o uso do mandato parlamentar não tem sido usado para enfrentar os inimigos do Brasil. Notoriamente há um receio (ou um medo oculto) dos aliados do ex-presidente, sobretudo daqueles que se elegeram na sombra do Bolsonaro. O que de fato vai mudar este estado de caos que vivemos são as pessoas nas ruas novamente. As manifestações nas avenidas exigindo a restauração da ordem democrática e harmonia entre os Poderes republicanos. É extirpar os políticos charlatões que esquentam as cadeiras da vigarice política para que nunca mais sejam eleitos. Resumindo: foi o povo nas ruas que tornou possível o impeachment da Dilma, que construiu um novo horizonte para a Direita e elegeu o Bolsonaro. É preciso medidas de combate reais e não apoteóticas. A militância direitista bolsonaristas padece de algo problemático: ele se acha à prova de erros. Pior: qualquer um que aponte seus equívocos é tachado de “comunista” ou inimigo público.

Longe de desprestigiar ou diminuir o ímpeto patriótico desta caminhada do Nikolas, é fundamental que os bolsonaristas tenham clareza que os inimigos do Brasil estão nos mesmos lugares dando as cartas e controlando seus títeres do sistema para fazerem o que bem entendem. O maior medo deles é ver o povo nas ruas novamente. Quem sabe esta caminhada do Nikolas seja o prelúdio do povo caminhando nas ruas de novo, forte, soberano e lutando pelo Brasil.

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