A cultura maranhense segue sobrevivendo na “carona” de atrações nacionais
Artistas maranhenses são preteridos em eventos culturais no estado, fortalecendo o ambiente de mendicância artística para sobreviverem e não serem esquecidos na história da cultura do Maranhão.

Nos últimos anos o Maranhão tem conseguido manter viva sua cultura, ainda que a custos muito altos. Porém, é fato que há pelo menos 15 anos nossa atividade artística perdeu grande parte de seu espaço no calendário cultural do estado. Temos dois momentos festivos do ano que já estabelecidos culturalmente festividades populares considerados os mais importantes, sobretudo para a economia: o carnaval e o São João. Ambos são responsáveis pelo aumento da cadeia produtiva da economia local que geram volumosas receitas arrecadatórias para os cofres do estado (que facilita a implementação de benefícios públicos através de serviços para a população).
É fato que nestas datas as atrações nacionais sejam o grande atrativo para público que os espera efusivamente (guardando seus aplausos, gritos e lágrimas de felicidade para quem aparece de vez em quando aqui… e a custo muito alto). Com isso os artistas locais são preteridos em favor da vontade política travestida de desejo popular. Pior: se estes artistas locais não tiverem alguma relação de amizade com patrocinadores ou com figurões da cultura do governo estadual precisam torcer por algum resquício de boa vontade para poder apresentar sua arte.
Um exemplo desta realidade é o que ocorreu neste domingo (19), na Av. Litorânea. Tivemos como atração de abertura do pré-carnaval maranhense o cantor Bell Marques (da consagrada banda baiana de axé Chiclete com Banana) que arrastou uma multidão de quase 500 mil foliões entusiasmados cantando euforicamente (ignorando até a chuva que caiu). A atração faz parte do circuito carnavalesco “Vem pro Mar”, do governo do Maranhão, que conta ainda com outras atrações nacionais (que vão se apresentar nos domingos subsequentes) como Xanddy Harmonia, Chiclete com Banana, Léo Santana, Banda Eva, Rafa e Pipo, Natanzinho Lima e Henry Freitas.
Segundo divulgação da Secretaria de Cultura do Maranhão, as atrações locais ficaram condicionadas (pra variar!) ao circuito “Vem Pro Centro”, Cortejo Deodoro (com a participação de blocos tradicionais e blocos afro, carnaval de rua e a ocupação cultural dos espaços públicos do Centro Histórico) e o Lava-pratos Imperatriz. Enfim, os artistas maranhenses estão fora holofotes do palco principal dos eventos no estado, fadados apenas aos holofotes dos postes dos circuitos de rua.
Há tempos que esta realidade parece ter se incorporado ao status quo da cultura do Maranhão. A casta artística maranhense se habitou com a condição de coadjuvantes (e alguns como meros figurantes) da nossa cultura, mendigando atenção para fazer arte. Alguns com sorte conseguem sobreviver através de recursos públicos oriundos de leis de incentivos públicos e do mecenato de parlamentares. Para alguns, há um aspecto eleitoreiro por trás dessas investidas da classe política em favor da produção cultural no estado, mas é preferível acreditar numa paixão genuína pela musicalidade, tradição, arte e linguagem maranhense que promove o beneplácito dos nossos agentes públicos, na qual garante a sobrevivência da nossa riqueza cultural antes que seja incorporada pelo relativismo inorgânico da satisfação imediatista (que subverte a subjetividade coletiva).
O mais triste é que a própria população não se importa com tal realidade sofrida que a classe artística da cultura maranhense passa, pois há tempos foi peremptoriamente desestimulada pela máquina governamental, e que agora acha normal a apatia cultural que prevalece no estado – talvez até acredite que nossa plêiade artística tem valor cultural menor que a dos outros estados do Brasil. Espero que não seja tarde demais para mudar este cenário trágico da nossa rica e privilegiada cultura maranhense, pois do contrário podemos padecer da vergonhosa pecha de “colônia cultural” brasileira.



