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O Irã luta pelo resgate de sua soberania… sob o domo do caos civil

O país vive uma onda de manifestações nunca antes vivenciada e que pode depor anos de um regime teocrático que condena a população à pobreza e ao martírio social

Nos últimos dias fomos bombardeados pelos acontecimentos no Irã, sobretudo na capital Teerã, onde os olhos da opinião pública focaram na onda de protestos noticiados pelos veículos de imprensa mundial. O cenário de caos instituído naquele país percorreram o mundo, com cenas de muita violência, prisões, vandalismo e até show de rock em celebração ao que parece ser o início de uma mudança institucional, religiosa e política no país.

A onda de protestos foi uma reação contra o governo e a crise econômica que já dura duas semanas, e se intensificaram nos últimos dias. Alguns manifestantes atearam fogo em diversos prédios públicos, como o prédio do governo e da TV estatal local. Segundo informações da HRANA (Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos), sediada nos EUA, o número de mortos até agora (em números atualizados) chega a mais de 600 pessoas e 48 membros das forças de segurança no Irã. No fim de dezembro de 2025 a moeda do país (rial) sofreu uma forte desvalorização atingindo mínimas históricas, resultando em uma brutal inflação de 40% no país. Tudo isso gerou um efeito em cadeia na economia do Irã, com aumentos abruptos nos preços de produtos básicos (como óleo de cozinha e frango) e escassez de alguns outros produtos das prateleiras, que atacaram o já baixo poder de compra do cidadão iraniano. Logo a insatisfação tomou conta da população, gerando uma indignação coletiva que impulsionou as agitações populares, se espalhando para mais de 100 cidades.

O grande dilema, além de encontrar uma solução imediata para a crise econômica, é que a situação ganhou tanta força que acabou abarcando outras insatisfações reprimidas há tempos pelo povo iraniano contra o regime teocrático imperante no país. Especialistas dizem ser a maior pressão para o governo do aiatolá Ali Khamenei (líder supremo e religioso do Irã), uma vez que manifestações públicas virulentas e abertamente contrárias ao governo nunca aconteceram antes, sobretudo nas cidades marcadas pela divisão étnica e pela pobreza extrema. Além de incendiar as ruas as pessoas gritavam publicamente “Morte a Khamenei”, numa clara comprovação do sentimento de repulsa e indignação com os rumos políticos, econômicos e religiosos que assolam o país.

A coisa piorou quando o governo cortou a internet para conter a organização das mobilizações no país e, como todo regime autocrático faz, tratou de transferir a culpa pelo cenário caótico do país para os EUA e Israel, acusando-os de “semear o caos” e ameaçando retaliações em caso de interferência militar de ambos os países. A onda de protestos configura-se numa reação genuína da população iraniana como nunca antes vista, em especial dos jovens, contra as ações desastrosas do governo, que fomenta a terrível a pobreza vivenciada pelos cidadãos e coloca em cheque a sobrevivência do regime teocrático que controla o país desde 1979 (quando Khomeini tornou-se líder supremo após a revolução islâmica).

Desde então o Irã manteve sua teocracia triunfante, resistindo a protestos anteriores via mecanismos de repressão violenta e sangrenta. Porém, o contexto atual apresenta-se bem diferente, uma vez que as agitações espalharam-se para todo o país e evoluíram de reclamações sobre dificuldades econômicas graves para desejo de deposição do establishment clerical (cuja influência regional está bastante reduzida). A ONU até agora mostrou “preocupação” com a onda de protestos no país islâmico. Jeremy Laurence, porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) limitou-se a dizer “o direito ao protesto pacífico, conforme consagrado no direito internacional, deve ser protegido. Todas as mortes devem ser investigadas prontamente, de forma independente e transparente”. Uma fala previsível e insípida diante de todo este imbróglio terrível no Irã. A ONU sempre agiu assim. Nunca tomaram qualquer medida efetiva contra o governos tirânicos no mundo. Nenhuma medida contrária foi tomada no Irã minimamente proporcional às atrocidades cometidas durante o “reinado” de Khomeini e seus sucessores impetrados aos seus cidadãos, como também a pessoas de outras nacionalidades (como a sentença de morte dada ao escritor britânico de origem indiana Salman Rushdie).

O Nepal recentemente atravessou por turbulências sociais violentas, já que vive uma realidade dura de desigualdade social e que castiga a população há anos. Tumultos, incêndios em prédios do governo e em residências de políticos e a violência física ilustram o cenário de caos instituído que foi muito noticiado no segundo semestre de 2025. Lembrando que até membros do alto escalão governo do Nepal foram assassinados pela população em fúria.

As iniciativas do governo iraniano de coibir as manifestações com ações violentas só aumentaram a raiva coletiva, transformando todo contra-ataque popular numa animalesca resposta que só potencializa a barbárie em curso. Neste trágico cenário de caos e tensão social só resta torcer para que os manifestantes encontrem um meio-termo de pacificação urgente, e que a ordem prevaleça para que danos maiores (ou brutais) não aconteçam, de forma que haja um entendimento sobre o que fazer pela recuperação do país.

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