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Sócio cobra R$ 462 mi do banco de Edir Macedo por perdas do Master

Um sócio do Digimais está cobrando quase meio bilhão de reais do banco, que é controlado pelo bispo Edir Macedo — dono da TV Record e fundador da Igreja Universal do Reino de Deus — por causa de perdas sofridas com a derrocada do Banco Master, da empresa de investimentos Reag e da holding Fictor.

O sócio em questão, Roberto Campos Marinho Filho, reclama que viraram pó os papéis da Fictor, da Reag e do Master que lastreiam a participação de 80% do banco de Macedo no fundo de investimento EXP 1, um FIDC (fundo de investimento em direitos creditórios). Os outros 20% são do próprio Marinho Filho, dono da Yards Capital, gestora do fundo.

Por sua vez, o Digimais também tem a sua reclamação sobre o sócio Marinho Filho. O banco foi à Justiça contra o empresário dizendo que o sócio sumiu com R$ 88 milhões em rendimentos do fundo sem dar explicações.

O episódio marca um novo imbróglio deflagrado após os escândalos financeiros do Master, da Reag e, mais recentemente, da Fictor. À venda, o Digimais tenta se defender dos ataques do sócio enquanto se reestrutura para melhorar o balanço.

Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil (2009-2015), foi contratado para presidir o Digimais e desempenhar essa tarefa.

Em meio à disputa, Marinho Filho levanta suspeitas da saúde financeira do banco.

Maurício Quadrado, Ex-Master, Assume O Digimais E Promete Revolucionar O Mercado Ao Estilo BTG

O começo

O fundo EXP 1 iniciou sua operação em fevereiro de 2025 com cerca de R$ 720 milhões. O Digimais “pagou” sua participação com CCBs (Certificados de Crédito Bancário) que representavam o direito do banco em receber pelos empréstimos consignados gerados por Master, Fictor e Reag. Pelo contrato, esses valores seriam repassados ao fundo.

Os problemas começaram quando o Master e a Reag foram liquidados pelo Banco Central após envolvimento em fraudes financeiras. A Fictor, que se dispôs a comprar o Master em novembro de 2025 por R$ 3 bilhões, entrou com pedido de recuperação judicial de R$ 4,2 bilhões em dívidas e assistiu a uma avalanche de investidores tentando resgatar suas aplicações.

Na última quinta-feira (12), a Yards notificou o Digimais a recomprar a carteira de R$ 462,2 milhões, supostamente sem lastro, aportada pelo banco no fundo. Deste total, papéis do Master e da Reag representam a maior parte em valor (R$ 316,6 milhões). O restante são títulos da Fictor (R$ 145,6 milhões).

Sem cobertura

No jargão do mercado financeiro, não ter lastro significa inexistir a documentação atrelada a cada operação de crédito, sinal de um negócio fraudulento ou mal feito.

No documento enviado ao Digimais, Marinho Filho pede que o banco recompre esses papéis devolvendo, assim, o dinheiro ao fundo. Ele afirma que o contrato assinado entre eles previa esse tipo de gatilho em casos do gênero. Diz ainda que, nessa situação, não vale trocar um papel ruim por outro de qualidade.

Se isso não ocorrer, Marinho Filho diz que tomará medidas judiciais. Na prática, fará um movimento dentro da ação que já move contra o Digimais em que questiona a existência desses créditos.

O banco nega e diz que a responsabilidade de cobertura em caso de problemas é de quem originou essas operações (Master, Reag ou Fictor).

O gestor também acusa o sócio de reter indevidamente valores decorrentes de pagamentos desses créditos, algo que, segundo ele, viola o contrato.

Apropriação indébita

Marinho Filho afirma que uma auditoria contratada verificou que 22.185 CCBs (no valor de R$ 316,6 milhões) não tinham lastro. Deste total, 13.489 eram da Fictor.

“O Digimais foi formalmente informado da existência de vícios estruturais graves na carteira de créditos consignados cedida, incluindo a ausência ou insuficiência de documentação comprobatória de parcela relevante das Cédulas de Crédito Bancário, inconsistências de originação, má formalização e falhas que comprometem a própria exequibilidade jurídica dos ativos”, diz o gestor na notificação.

“Até a presente data, não houve a devida recomposição financeira desses valores. A situação agravou-se quando restou comprovado que o próprio Digimais, passou a intervir indevidamente na cadeia de pagamento dos créditos cedidos, comunicando cedentes originários e demais convênios, para que os repasses deixassem de ser direcionados ao EXP 1 e fossem realizados em favor da própria instituição.”

Para ele, essa prática pode ser enquadrada como apropriação indébita.

Pagamentos foram feitos, diz banco
O Digimais montou o EXP 1 em fevereiro de 2025, adquirindo as cotas mediante contrato de cessão de direitos creditórios cedidos por outras instituições.

Segundo Marcelo Brasil, diretor jurídico do banco, esses direitos totalizaram R$ 722,8 milhões naquele momento, valor que, posteriormente, foi ajustado para R$ 659,7 milhões.

Esse recurso foi transformado em cotas do fundo, que passou a ganhar dinheiro com aplicações financeiras feitas a partir dos pagamentos desses empréstimos consignados pelos tomadores.

Em nota, o Digimais afirma inexistir a coobrigação. Ou seja, caso houvesse qualquer tipo de problema com esses créditos a cobertura dos valores não seria feita pelo banco e, sim, por quem gerou o crédito.

O banco informa que, desde o início, já repassou mais de R$ 88 milhões em pagamentos ao fundo.

“Nas ações judiciais que temos em andamento, os repasses foram devidamente comprovados com planilhas e documentos de transferências bancárias efetuadas nas contas do EXP 1”, disse o banco em nota.

“Ao Digimais não foi proporcionado conhecimento da destinação de tais recursos.”

Conversão em dinheiro

Essa disputa ocorre no momento em que os sócios se preparam para discutir a amortização de suas cotas. Este é o único procedimento capaz de reverter o patrimônio em dinheiro para os cotistas.

Essa operação está prevista para 28 de fevereiro. Ainda não se sabe se o EXP 1 terá condições financeiras para fazer esse acerto financeiro após os escândalos envolvendo Master, Reag e Fictor. Os valores ficaram bloqueados por decisões judiciais em favor de credores.

O Digimais afirma ter ingressado na Justiça contra a Yards porque, desde novembro de 2025, não consegue informações sobre a política de investimento do fundo e a forma como a gestora “precificou” os papéis que hoje compõem o patrimônio do fundo.

Por isso, diz que passou a fazer depósitos em juízo, enquanto aguarda o desfecho desse litígio.

Consultado, Marinho Filho não quis se manifestar. Disse que sua posição consta nos autos do processo.

 

UOL

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