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Amigo de Juscelino Filho obtém contratos em estrutura bilionária do 5G

Ligadas a integrantes do centrão, duas entidades sediadas em São Paulo que administram um orçamento bilionário do leilão do 5G contrataram a consultoria de um amigo do ex-ministro das Comunicações e deputado federal Juscelino Filho (PSDB-MA).

O dono da Pasch Consultoria, João Magalhães, é amigo de Juscelino Filho e o assessora há mais de dez anos, desde o primeiro mandato dele como deputado federal, iniciado em 2015.

Com o aval do governo Lula (PT), o setor público de telecomunicações passou a ser área de influência do grupo político do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Juscelino Filho, aliado de primeira hora do senador, se tornou um dos principais nomes do setor.

Nos últimos anos, o centrão passou a ocupar cargos estratégicos no Ministério das Comunicações, na Anatel, na Telebras e na estrutura responsável pelo 5G, que recebeu quase R$ 10 bilhões após o leilão.

A verba é administrada por duas entidades privadas e, segundo o edital, deve ser destinada a obras e serviços públicos. Uma delas é a Eace (Entidade Administradora da Conectividade de Escolas), que recebeu R$ 3,1 bilhões para levar internet a escolas públicas.

A entidade afirmou ao UOL que a Pasch participou de um “processo competitivo” para executar o serviço de “consultoria para a execução do projeto de Planejamento Estratégico”.

“Incluindo diagnóstico organizacional, revisão do planejamento estratégico, definição de metas e indicadores, e suporte à implementação. O serviço vem sendo executado de maneira adequada, conforme objeto contratado”, registrou a Eace, que não revelou valor e data do contrato (Leia a íntegra dos posicionamentos mais abaixo).

A outra entidade que contratou a empresa do conselheiro de Juscelino é a EAF (Entidade Administradora da Faixa de 3,5 GHz), responsável por gerir R$ 6,3 bilhões destinados à ampliação da infraestrutura de internet no país.

A EAF substituiu integrantes da diretoria por nomes ligados ao grupo de Alcolumbre no início do ano. Em janeiro, a entidade tinha R$ 3,9 bilhões em caixa, enquanto parte das obrigações previstas já havia sido entregue.

A entidade assinou, em março, um contrato de R$ 300 mil com a Pasch para “consultoria em planejamento estratégico”. A empresa recebe R$ 25 mil mensais, e o acordo pode ser reajustado a cada 12 meses.

João Magalhães prestou serviços para o gabinete de Juscelino entre 2015 e 2022. Recebeu um total de R$ 945 mil, por meio da Pasch, por “consultorias, pesquisas e trabalhos técnicos”.

 

 

João Magalhães (à direita, de gravata) prestou serviços para o gabinete de Juscelino Filho entre 2015 e 2022
João Magalhães (à direita, de gravata) prestou serviços para o gabinete de Juscelino Filho entre 2015 e 2022

Ele acompanhou Juscelino, quando o parlamentar se licenciou da Câmara para assumir o comando das Comunicações no início do terceiro mandato de Lula, em 2023.

Apesar de participar de reuniões e agendas no ministério, Magalhães não tinha cargo oficial. Deixou a pasta após a revelação de sua atuação informal, em 2023.

A EAF assinou o contrato com a empresa de Magalhães, que pode ser prorrogado mediante aditivo, pela presidente Gina Duarte e pela mulher do empresário.

Antes de comandar a EAF, a engenheira Gina Duarte passou pela diretoria financeira da Eace. Trabalhou também no Postal Saúde, a operadora de assistência médica dos Correios, no período em que Juscelino era ministro.

Procurado, Magalhães não se manifestou. A EAF disse ser uma “empresa dotada de independência administrativa e autonomia financeira”, registrou que “não comenta eventuais processos internos de contratação” e afirmou que, diante dos “reiterados questionamentos” do UOL, caberia “uma reflexão objetiva” (leia a íntegra da nota da entidade).

“Qual informação a EAF tem obrigação legal ou editalícia de divulgar e não divulga? A resposta deve partir das obrigações efetivamente aplicáveis à entidade, e não de interpretações incompatíveis com sua natureza jurídica, que podem induzir o leitor a conclusões equivocadas sobre sua atuação”, declarou.

O UOL pediu recentemente à Eace e à EAF a lista com a íntegra dos contratos firmados, valores acertados, funcionários e salários para analisar como estão sendo gastos os R$ 9,4 bilhões de uso público, gerenciados pelas entidades.

João Magalhães (à direita, de máscara) participou de reuniões no Ministério das Comunicações, enquanto atuou de maneira informal na pasta.
João Magalhães (à direita, de máscara) participou de reuniões no Ministério das Comunicações, enquanto atuou de maneira informal na pasta.

Contratos e falta de transparência
Nos últimos meses, a reportagem identificou, por exemplo, que a EAF contratou uma empresa para prestar serviços de relações institucionais sob demanda, incluindo monitoramento eleitoral.

A entidade também empregou ex-assessores de Juscelino e um aliado do senador Weverton Rocha (PDT-MA), compadre do ex-ministro, entre seus funcionários.

A Eace, que também contratou a Pasch, firmou contratos com empresas e um escritório de advocacia ligado a um ministro do STF (Supremo Tribunal Federal).

As duas entidades não forneceram à reportagem a íntegra dos contratos e informações solicitadas, sob a justificativa de serem organizações privadas com obrigações de confidencialidade.

Após questionamentos do UOL, a EAF retirou de seu portal informações sobre processos de contratação concluídos, deixando de disponibilizar critérios e regras de seleção de fornecedores.

Em nota, Juscelino Filho afirmou que nunca fez indicações para a EAF ou a Eace.

Segundo o deputado, a escolha dos diretores-presidentes cabe às assembleias-gerais das entidades, formadas pelas operadoras de telefonia, e as demais contratações são feitas pelas próprias administrações, com autonomia e governança próprias.

O parlamentar afirmou ainda que não exerce ingerência sobre as estruturas e classificou como “suposições” as conclusões de que teria influência sobre elas.

A assessoria de Alcolumbre disse, por meio de notam que o apoio do senador a políticas públicas “não se confunde com indicação política ou gestão administrativa desses órgãos, nem implica participação nas decisões do Poder Executivo sobre a ocupação de cargos”.

Quem fiscaliza
O leilão do 5G definiu que as operadoras, em vez de repassarem R$ 9,4 bilhões à União, aplicariam os recursos em entidades privadas responsáveis pelas obras.

Diferentemente dos órgãos públicos, essas estruturas não têm obrigação de realizar licitações nem divulgar todas as informações de contratação.

A EAF é supervisionada pelo Gaispi (Grupo de Acompanhamento da Implantação das Soluções para os Problemas de Interferência na faixa de 3.625 a 3.700 MHz), liderado desde o fim do ano passado pelo conselheiro da Anatel Edson Holanda, aliado de Alcolumbre.

A Anatel afirmou, após pedido do UOL via Lei de Acesso à Informação, que não possui os dados sobre as contratações da EAF, cuja custódia caberia à entidade privada.

Holanda também indicou um primo para o conselho da EAF, responsável por aprovar orçamento, planejamento e investimentos da entidade.

 

 

Matéria completa no UOL

 

 

 

 

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