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Pesquisa identifica oito planetas candidatos a ter vida extraterrestre

Estudo analisou mais de 6 mil exoplanetas catalogados pela Nasa e identificou mundos com características semelhantes às da Terra; o GJ 1002b alcançou 98% de similaridade.

BRASIL — Um pesquisador brasileiro identificou oito exoplanetas — planetas localizados fora do Sistema Solar — que apresentam características consideradas favoráveis à presença de água em estado líquido e, consequentemente, podem reunir condições importantes para o desenvolvimento de vida.

O levantamento foi realizado pelo pesquisador Fábio Calabrio Evangelista da Silva, sob orientação do professor Marcelo Borges Fernandes, do Observatório Nacional.

Para chegar aos oito candidatos, Silva analisou dados de mais de 6 mil exoplanetas já descobertos e catalogados em um banco de dados da Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos.

Entre as características avaliadas estavam o raio, a densidade dos planetas e a distância em relação às estrelas que orbitam. O pesquisador buscou especialmente mundos com dimensões e densidades semelhantes às da Terra.

Outra condição considerada foi a localização na chamada zona habitável, região ao redor de uma estrela na qual as temperaturas podem permitir a existência de água líquida na superfície de um planeta, dependendo também de fatores como atmosfera e pressão.

“A zona de habitabilidade é uma zona que possibilita a água líquida porque não é nem tão quente, mais próximo da estrela, e nem tão frio, para longe da estrela. Então é a zona perfeita. A gente chama de Goldilocks Zone, a Zona dos Cachinhos Dourados”, explica Silva.

Além dessas informações, o estudo estimou características da atmosfera, pressão e temperatura da superfície dos planetas. A partir do conjunto de dados, o pesquisador selecionou os oito exoplanetas considerados mais semelhantes à Terra dentro dos critérios analisados.

Isso, no entanto, não significa que exista vida nesses locais. As características indicam apenas que esses mundos podem apresentar condições mais favoráveis à existência de água líquida, considerada essencial para a vida como ela é conhecida na Terra.

“A Terra é o único exemplo que a gente vai ter, por enquanto, para se definir vida, para se definir quais são as características necessárias para se ter água líquida”, afirma Silva.

O trabalho foi apresentado durante a 6ª edição do Astrobion, evento dedicado à astrobiologia organizado pelo Observatório Nacional, no Rio de Janeiro.

GJ 1002b é o mais parecido com a Terra

Entre os oito planetas selecionados pelo estudo, o GJ 1002b aparece como o mais parecido com a Terra. Segundo a pesquisa, o exoplaneta apresenta índice de similaridade de 98% com o nosso planeta dentro dos parâmetros analisados.

Descoberto em 2022, o GJ 1002b está localizado a aproximadamente 16 anos-luz da Terra. Isso significa que a luz leva cerca de 16 anos para percorrer a distância entre o sistema onde ele está localizado e o nosso planeta.

O exoplaneta orbita uma estrela do tipo anã vermelha, classificada como estrela do tipo M e mais fria que o Sol. Uma volta completa ao redor de sua estrela dura apenas cerca de dez dias terrestres.

Busca por vida fora da Terra

A procura por planetas semelhantes à Terra é uma das estratégias utilizadas por pesquisadores na tentativa de identificar ambientes capazes de abrigar vida.

Segundo Marcelo Borges Fernandes, porém, procurar condições parecidas com as terrestres não significa que apenas planetas semelhantes ao nosso possam desenvolver organismos vivos.

“A gente está buscando um planeta que tenha condições similares à Terra. Mas isso não quer dizer que seja o único lugar possível de ter vida no universo, porque podem existir outras formas de vida que a gente ainda não conheça e que precisem de características químico-físicas diferentes”, ressalta.

A ideia de que possa existir vida fora da Terra acompanha a humanidade há séculos. Na Grécia Antiga, pensadores já especulavam sobre a existência de vida na Lua. A busca científica ganhou força principalmente durante a corrida espacial, entre as décadas de 1950 e 1960.

Inicialmente, os estudos se concentravam principalmente em corpos próximos, como a Lua e Marte, além da tentativa de detectar sinais que pudessem ter sido produzidos por civilizações extraterrestres.

A descoberta de exoplanetas ampliou significativamente esse campo de pesquisa.

Em 1992, foram identificados Poltergeist e Phobetor, dois dos primeiros exoplanetas confirmados. Desde então, milhares de mundos fora do Sistema Solar foram descobertos, aumentando o número de locais que podem ser investigados em busca de ambientes potencialmente habitáveis.

Atmosfera pode revelar pistas importantes

Como esses planetas estão a anos-luz de distância, visitá-los permanece inviável com a tecnologia disponível atualmente. Por isso, grande parte das informações é obtida por meio de observações realizadas a partir da Terra ou de telescópios espaciais.

Uma das principais estratégias é analisar a atmosfera dos exoplanetas.

Telescópios como o James Webb conseguem estudar a luz das estrelas quando um planeta passa diante delas. Parte dessa luz atravessa a atmosfera do planeta antes de chegar aos instrumentos científicos.

Como diferentes substâncias químicas interagem com a luz de maneiras específicas, os pesquisadores conseguem procurar sinais de determinados gases na atmosfera.

“Com alta resolução espectral, você pode ver se existe uma atmosfera, determinar a composição química da atmosfera e, com isso, você vai juntando cada pecinha do quebra-cabeça de forma a tentar definir se aquele planeta pode ter condições ideais para existência da vida ou não”, explica Fernandes.

Bioassinaturas não significam confirmação de vida

Astrobiólogos também procuram as chamadas bioassinaturas, substâncias ou combinações químicas que, na Terra, podem estar relacionadas à atividade de organismos vivos.

Um exemplo é a presença simultânea de determinados gases, como metano e oxigênio. Mesmo assim, a detecção dessas substâncias precisa ser analisada com cautela.

Estudos recentes sobre o exoplaneta K2-18b, por exemplo, encontraram sinais de metano e dióxido de carbono em sua atmosfera. Também foi identificada uma possível assinatura associada ao sulfeto de dimetila, conhecido como DMS.

Na Terra, essa substância está relacionada principalmente à atividade de organismos como o fitoplâncton. A descoberta gerou repercussão internacional porque o K2-18b também é considerado um possível mundo oceânico.

No entanto, pesquisadores alertam que uma substância isolada não é suficiente para confirmar a existência de vida.

Muitos compostos considerados possíveis bioassinaturas também podem ser produzidos por processos não biológicos, incluindo atividades geológicas, reações químicas ou efeitos da radiação.

“A gente tem que ter sempre muito cuidado para analisar isso e comparar com o único exemplo que a gente tem, que é a Terra, para saber se a única explicação seria uma fonte de vida ou se pode ser de fontes geológicas ou atmosféricas não ligadas à vida”, ressalta Fernandes.

Mais de uma evidência seria necessária

De acordo com José Aponte, pesquisador do Laboratório Analítico de Astrobiologia da Nasa, nenhuma análise isolada pode confirmar definitivamente a existência de vida extraterrestre.

Segundo ele, seriam necessárias diferentes linhas de evidência apontando para a mesma conclusão.

Uma delas seria encontrar determinadas moléculas repetidamente no ambiente, com resultados consistentes em diferentes medições.

Outra possibilidade seria identificar a predominância de determinados tipos de moléculas quirais.

Moléculas quirais têm a mesma composição química, mas estruturas espaciais diferentes, de maneira semelhante às mãos direita e esquerda.

Na Terra, organismos utilizam quase exclusivamente aminoácidos de configuração L, enquanto os açúcares presentes nos seres vivos são predominantemente de configuração D.

Uma terceira linha de investigação envolve os isótopos dos elementos químicos.

Na Terra, processos biológicos demonstram preferência por determinados isótopos mais leves, como o carbono 12 em relação ao carbono 13.

“Não se trata apenas de encontrar uma única molécula, mas sim de encontrar mais de uma linha de evidência combinada”, explica Aponte.

Ingredientes da vida já foram encontrados no espaço

A descoberta de moléculas orgânicas também não significa necessariamente que organismos vivos estejam presentes.

Aponte participou do grupo que analisou amostras coletadas no asteroide Bennu, localizado próximo à Terra.

As análises identificaram dezenas de moléculas orgânicas, incluindo componentes relacionados aos ácidos nucleicos e diversas bases nitrogenadas presentes nos organismos terrestres.

Também foram encontrados 14 dos 20 aminoácidos utilizados na produção de proteínas por organismos na Terra, incluindo o triptofano, que ainda não havia sido observado em amostras extraterrestres analisadas dessa maneira.

Mesmo assim, essas moléculas podem ter sido formadas sem participação de organismos vivos, a partir de processos químicos ocorridos há centenas de milhões de anos.

“No caso de encontrarmos um composto do tipo nucleotídeo ou uma cadeia de RNA, a história é outra. Isso poderia ser uma evidência mais robusta, porque moléculas como essas são muito frágeis e se decompõem muito rapidamente em termos geológicos”, afirma Aponte.

Missões devem ampliar busca por vida

Além dos exoplanetas, cientistas também mantêm expectativas em relação a possíveis ambientes habitáveis dentro do próprio Sistema Solar.

Uma das principais missões é a Europa Clipper, destinada ao estudo de Europa, uma das luas de Júpiter.

Há indícios de que exista um enorme oceano de água salgada abaixo da camada de gelo que cobre a superfície dessa lua. A missão deverá investigar se o ambiente possui condições adequadas para a existência de vida.

Outra iniciativa é a missão Dragonfly, que deverá seguir rumo a Titã, uma das luas de Saturno.

Titã possui uma atmosfera rica em compostos químicos e apresenta metano em estado líquido em sua superfície. A missão pretende investigar a química do local e procurar indicadores relacionados à possibilidade de vida baseada em água ou em hidrocarbonetos.

Enceladus, outra lua de Saturno, também desperta interesse dos pesquisadores por apresentar evidências de um oceano subterrâneo.

Marte permanece entre os principais alvos da astrobiologia. O planeta possui gelo em sua superfície e pode apresentar reservatórios de água no subsolo, o que mantém aberta a possibilidade de que tenha reunido condições favoráveis à vida em algum momento de sua história.

 

 

Agência Brasil

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