
A verdade é que o dia histórico, tão esperado, foi murchando sem parar. O campo mostrou um Haiti que não esteve à altura da ocasião. As esperadas falhas defensivas apareceram, e o Brasil só não goleou por mais porque não forçou para isso — deveria, para ser primeiro do grupo.
Viver o jogo no Haiti foi algo completamente diferente do que estar nos Estados Unidos ou até mesmo no México para a Copa do Mundo. Isso é uma obviedade, mas ressalto que a diferença é muito maior do que a obviedade.
Impressionou em Porto Príncipe como o jogo mobilizou 100% da sociedade. Os conflitos pararam, pelo menos que se saiba. E as ruas, geralmente desertas quando o sol se põe, estavam tomadas, e assim ficaram durante boa parte da noite e madrugada, ao som de buzinaços e vuvuzelas — aqui, sim, não se pode falar sobre todos os bairros.

As bandeiras do Haiti estão por todos os cantos, e o jogo — e o país na Copa — são uma informação constante, visual, onipresente.
A construção do grande momento foi se dando ao longo da sexta-feira, com as pessoas se juntando para procurar um lugar para ver a partida. Na Praça Boyer, em um bairro teoricamente nobre e onde fica o Centro Cultural Brasil, chamou a atenção o fato de os telões mostrarem as imagens do jogo, mas sem áudio.
Dois homens com microfone fizeram o papel de narradores do jogo e animadores do público. Eles que puxaram o hino nacional, cantado a todo pulmão com os jogadores perfilados. Pediam cartão amarelo, reclamavam de erros e chamavam a galera.
Os primeiros 20 minutos foram divertidos. Um chute bloqueado? Festa. Defesa do goleiro parecia gol. O que mais causava frisson era uma bola roubada na defesa, porque isso representava a chance de contra-atacar. A turma levantava, parecia uma ocasião clara de gol em andamento — o que nunca aconteceu.
Veio o primeiro gol do Brasil, anulado — e comemorado como se fosse um gol do Haiti. Mas aí veio o primeiro para valer. E já rolou aquele silêncio. Quem achava que os haitianos estariam divididos, entre a pátria amada e a pátria escolhida para torcer no futebol, enganou-se.
A essa altura, os portões da praça já estavam fechados. Ninguém entra, ninguém sai.
Segurança? O fato é que o espaço estava abarrotado, com várias pessoas subindo nas árvores para buscar uma boa visão do telão.
Para sair da praça e voltar ao Centro Cultural, foi preciso pular a grade. E atravessar a rua com muito cuidado, porque no Haiti não há semáforos, sinalização nem regras. Ou melhor, a regra é clara: cada um faz o que quiser. Quando há um acidente, uma batidinha corriqueira, os envolvidos dão marcha à ré e seguem seus caminhos.
Saem o segundo e o terceiro gols. E o quarto, de Endrick, mas esse não valeu. A essa altura, os haitianos já estão bem mais calados. Ainda assim, alguns deles olham feio para dois fuzileiros navais brasileiros que comemoram o gol de forma absolutamente discreta, apenas cerrando os punhos — eles estavam ali para a proteção do embaixador, que precisa ter escolta constante em um país como o Haiti.
“Poxa, vocês não vão nos deixar fazer nem um golzinho?”, esbravejou comigo a Irene, que foi minha tradutora do creole haitiano para o português. O pai da filha dela é brasileiro, e ela foi adotada, quando criança, por um soldado da Missão de Paz da ONU liderada pelo Brasil.
Até que no final o Haiti tentou. Eu estava torcendo pelo gol de honra deles, confesso. Queria ver a explosão de orgulho e alegria. Mas não deu. Coisa boa no Haiti é algo raro de acontecer.
Todo mundo com quem eu falei nos últimos dias estava confiante que o Haiti podia ganhar do Brasil. Menos um menino de 11 anos que me falou: “Vai ser 7 a 1 para o Brasil”. Não sei se ele fez de propósito.
Mas enfim caiu a ficha de um povo que estava iludido. Nos 15 minutos finais, a galera já estava cansada, desmotivada. Os portões da praça estavam abertos, só tinha gente saindo, não mais entrando.
O apito final foi como um alívio, o fim do suplício. Aí, sim, a festa começou para valer.
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