Política

Michelle Bolsonaro e seu michellismo imaturo à Direita

Em vídeo publicado nas redes sociais Michelle Bolsonaro desabafa seu inconformismo com os filhos de Jair Bolsonaro, denuncia ataques sofridos e fornece munição política para a Esquerda contra a Direita em pleno ano eleitoral

Neste dia 24 de junho a ex-primeira dama Michelle Bolsonaro publicou um vídeo em suas redes sociais expondo em tom de desabafo publicamente conflitos políticos com o pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro e os demais enteados. O vídeo é forte, com palavras duras e coloca em dúvidas a coesão da Direita nacional sobre decisões políticas definidas como parte de uma estratégia para vencer as eleições deste ano.

É fato que existem grupos internos dentro da chamada Direita nacional (como existem em todos os grupos políticos). O PT é composto por várias agremiações, com suas diferenciações e métodos próprios, mas que convergem para um denominador comum. Um exemplo disso é o PSOL, que até 2004 era uma corrente interna do PT (CST) antes de se tornar partido político em 2005. Isto é natural, pois todo grupo político organizado tem sua heterogeneidade justamente por causa de diferenciações entre seus componentes. No entanto, é notório que, enquanto grupo, todos estejam em convergência pelo objetivo comum do grupo. Na Direita parece que alguns quadros ainda não despertaram para algo tão óbvio.

Michelle Bolsonaro parece ter sido muito mal orientada por apoiadores que caminham ao seu lado e que fazem política com o coração… e não com a razão. É totalmente compreensível o mérito da indignação da ex-primeira dama e seus motivos para tal. Michelle tem sido alvo de críticas pela ala dos bolsonaristas ligados ao Allan dos Santos, Eduardo Bolsonaro (ambos exilados dos EUA) e Carlos Bolsonaro. No vídeo é falado até do dano que tais conflitos causam em sua filha (fruto de seu casamento com Jair Bolsonaro). É uma situação indigesta de se conviver, porém, a atitude de falar isso e outras coisas mais em vídeo público foi um tiro no pé colossal.

Michelle estampou publicamente não apenas problemas familiares, mas problemas políticos internos dos bastidores da Direita e, sobretudo, expôs sua própria imaturidade política. Problemas internos devem ser tratados internamente, pois quando expostos da maneira como foram e no atual contexto político que estamos servem apenas como armas para os inimigos da Direita contra… a própria Direita. Uma coisa que chamou mais atenção no vídeo foi a acusação feita por Flávio Bolsonaro, segundo Michelle, de que ela não entende de política, o que a fez se sentir “humilhada”. Falou até mesmo em “punhalada”, termo usado para quem é traidor. Isso é muito grave!

Bom, a atitude de publicar este vídeo confirmou a tal acusação de Flávio Bolsonaro contra a atual presidente do PL Mulher. Se entendesse minimamente de política jamais tornaria público assuntos de bastidores que podem causar problemas maiores.

Tudo isso começou por causa da aliança entre o PL no Ceará, na figura do Dep. Federal André Fernandes (PL-CE) com Ciro Gomes. Michelle se opôs abertamente a esta aliança em favor do Senador Eduardo Girão (NOVO-CE), justificando que o Coroné Gomes sempre foi inimigo do seu marido e que agora parasita a Direita para sobreviver politicamente. Isto é fato. Michelle tem razão. No entanto, tal acordo foi endossado pelo próprio Jair Bolsonaro (seu marido) em favor de Alcides Fernandes (pai do deputado André Fernandes e bolsonarista fervoroso) justamente porque no Ceará a Esquerda é maioria e a Direita precisa de senadores para ter maioria no Senado. A aliança com Ciro Gomes pode garantir a eleição de um bolsonarista. Será que Michelle não sabe que o próprio Eduardo Girão foi apoiado pelo Coroné Ciro Gomes em 2018? Sim, Ciro pediu votos para Girão contrariando o próprio partido PDT a época e do então governador Camilo Santana, que apoiavam Eunício Oliveira.

Não se sabe a intenção de Michelle Bolsonaro com este desabafo público, mas fato é que reverberou muito ruim para ela própria. Fica parecendo que a esposa de Jair Bolsonaro se enxerga como um vetor da Direita nacional, como uma terceira via autêntica ou ícone de uma corrente ideológica mais verde-amarela, mais raiz, ou uma espécie de michellismo de centro acadêmico: imaturo e movido por uma rebeldia emocional efêmera.

Na manhã de hoje o pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro, que já havia se pronunciado ontem sobre o vídeo, fez seu pedido de desculpas para Michelle. Viralizaram notícias de que a ex-primeira dama declarou que continua apoiando a candidatura de Flávio Bolsonaro para presidente. Ou seja, isto prova que tudo poderia ter sido resolvido nos bastidores. Portanto, pra quê então ter feito o tal vídeo? Enfim.

Política não se faz com emoção, apesar de fazerem parte das relações políticas. Política se faz com razão. Decisões políticas não podem ser instrumentalizadas como ferramenta de vingança, de “toma lá, dá cá”, e muito menos para validar amoralidades de correligionários. Atitudes deste tipo em ano eleitoral só pioram a coesão na Direita, fortalece divisões internas, favorece os inimigos de sempre e os novos vigaristas da indigência política assanhados pela briga dos seus adversários. Que este episódio sirva de aprendizado para a Direita e que entenda que popularidade é diferente de inteligência política. Vale reafirmar mais uma vez: a Direita não precisa de união necessariamente, mas de unidade, ou seja, convergir suas ações para o alcance do objetivo comum. Problemas internos se resolvem internamente sejam eles familiares, sejam eles políticos.

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