Trump revoga visto de embaixadora do Brasil em retaliação a Lula
Maria Luisa Viotti, embaixadora em Washington, tem visto diplomático cancelado; Casa Branca condiciona restabelecimento à aprovação de Daniel Perez, indicado de Trump que quebrou protocolo ao anunciar nome antes de pedir agrément ao Itamaraty

O governo Donald Trump revogou nesta terça-feira (3) o visto diplomático da embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luisa Viotti (Itamaraty), em uma medida que equivale à expulsão da diplomata do território americano. A retaliação ocorre porque o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda não concedeu o agrément — o aval formal obrigatório do país anfitrião — para que Daniel Perez, indicado por Trump para a embaixada dos EUA em Brasília, assuma suas funções. Auxiliares do republicano deixaram claro: o visto de Viotti só será reestabelecido se Lula der luz verde para Perez.

A crise do agrément: quando o protocolo diplomático virou arma política
A tensão não começou ontem. Daniel Perez, deputado estadual republicano da Flórida e filho de imigrantes cubanos, foi anunciado por Trump como novo embaixador no Brasil em 1º de junho de 2026. Mas, em vez de seguir o rito estabelecido pela Convenção de Viena — que prevê consulta sigilosa ao país anfitrião antes de qualquer anúncio público —, a Casa Branca fez o caminho inverso: tornou o nome público primeiro e só enviou o pedido formal de agrément ao Itamaraty um mês depois.
Para diplomatas brasileiros, o processo “já começou com rusgas”. Integrantes do governo Lula avaliam que a condução contrariou o rito previsto pela Convenção de Viena, segundo o qual o nome do embaixador costuma ser submetido ao Legislativo apenas após a concessão do agrément.
Não há prazo legal para que o Brasil responda ao pedido. O país pode, inclusive, nunca responder — como aconteceu com Marcelo Crivella, indicado por Bolsonaro para a embaixada na África do Sul em 2021, cujo nome foi retirado após seis meses de silêncio.
Quem é Daniel Perez, o embaixador que Trump quer em Brasília
Perez é um desconhecido da política externa. Eleito para a legislatura estadual da Flórida em 2017, não consta em seu currículo qualquer experiência anterior em relações internacionais. O que o define é a filiação ideológica: crítico de governos de esquerda na América Latina, ele chefiará a missão americana em um momento em que Trump impôs tarifas de 50% sobre produtos brasileiros e em que as eleições presidenciais de outubro de 2026 colocam em jogo a continuidade do projeto político de Lula.
Durante a sabatina no Senado americano em 16 de julho, Perez afirmou que, se confirmado, defenderá “eleições livres e justas” no Brasil, além de apoiar instituições democráticas e liberdade de expressão. A declaração, em um país onde o presidente americano já questionou a lisura de eleições em outras nações, soou como advertência — não como promessa de cooperação.
O nome de Perez foi aprovado pelo comitê de Relações Exteriores do Senado e deve ir a plenário na primeira semana de agosto. Se confirmado, substituirá Elizabeth Bagley, que deixou o posto em janeiro de 2025. Desde então, os EUA ficaram 17 meses sem embaixador no Brasil, com a missão comandada pelo encarregado de negócios Gabriel Escobar.
Maria Luisa Viotti: a diplomata que virou peça de troca
A escolha de Viotti como alvo da retaliação não é casual. Nomeada em maio de 2023, ela é a primeira mulher a chefiar a embaixada brasileira em Washington — um cargo que ocupou após uma carreira de quase cinco décadas no Itamaraty.
Viotti tem 72 anos, ingressou na diplomacia em 1976, foi embaixadora na Alemanha (2013-2016), representante permanente do Brasil na ONU (2007-2013) e, entre 2017 e 2022, chefiou o gabinete do secretário-geral António Guterres na ONU. É uma das diplomatas mais experientes do país — e, por isso, uma peça de xadrez de alto valor na mesa de Trump.
A relação entre Viotti e o Departamento de Estado já estava deteriorada. Em julho de 2025, após Trump revogar vistos de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e aliados de Lula, a embaixadora procurou o Departamento de Estado e teve o contato recusado. A resposta, segundo fontes, foi um lacônico “too late” (tarde demais).
Agora, a revogação do visto eleva a crise a outro patamar. Sem visto diplomático, Viotti não pode permanecer nos EUA em caráter oficial. A medida, embora não configure rompimento formal de relações, é um gesto de hostilidade raro entre democracias — e sem precedentes recentes na relação Brasil-EUA.
“A revogação do visto de uma embaixadora em exercício é um ato de pressão extrema. No direito internacional, o país anfitrião pode declarar qualquer diplomata persona non grata, mas fazer isso como barganha por um agrément inverte a lógica: quem deveria pedir desculpas pelo protocolo quebrado é quem impõe a retaliação.”
O tabuleiro: eleições brasileiras no centro da disputa bilateral
A cronologia não deixa dúvidas sobre o que está em jogo. Trump anuncia Perez em junho, no auge das negociações do tarifaço. Perez diz que vai defender “eleições livres e justas” no Brasil. O Senado americano acelera a votação para agosto, antes do segundo turno brasileiro. E Trump revoga o visto de Viotti exatamente quando a campanha eleitoral no Brasil entra na reta final.
A inserção do tema eleitoral na pauta bilateral é deliberada. Trump já deu demonstrações de que vê a política brasileira como extensão de sua própria guerra cultural. A aceleração do processo de residência do deputado Eduardo Bolsonaro nos EUA, determinada pela Casa Branca em paralelo às tensões de 2025, reforça essa leitura.
Ex-assessores do Departamento de Estado já alertavam, em 2025, para um “planejamento de escalada” que poderia incluir congelamento de ativos de autoridades brasileiras e sanções secundárias contra instituições financeiras. A revogação do visto de Viotti pode ser apenas o primeiro movimento.
O que o Brasil pode fazer — e o que não pode
O governo Lula tem poucas opções que não agravem a crise. Conceder o agrément a Perez seria, do ponto de vista diplomático, legitimar a quebra de protocolo e aceitar um embaixador que já se posicionou sobre eleições internas brasileiras. Recusar o agrément, por outro lado, manteria Viotti sem visto e abriria espaço para novas retaliações.
Uma terceira via — negociar um compromisso em que Perez assuma com compromissos explícitos de não ingerência — parece improvável em um governo Trump que não reconhece limites à pressão diplomática.
O precedente mais próximo é o do próprio Brasil: em 2021, o governo Bolsonaro demorou meses para conceder agrément a embaixadores de países que haviam criticado sua gestão da pandemia. Mas nunca chegou a revogar vistos de embaixadores em exercício como moeda de troca.
A pergunta que o caso deixa
A Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, de 1961, foi escrita para evitar exatamente este tipo de situação: a transformação de embaixadores em reféns de disputas políticas internas. Ao revogar o visto de Viotti para pressionar Lula sobre Perez, Trump não está apenas quebrando protocolo — está questionando se as regras do jogo diplomático ainda valem quando um dos jogadores se recusa a segui-las.
O Brasil tem eleições em outubro. Os EUA têm um embaixador indicado que promete vigiar essas eleições. E uma embaixadora brasileira de 72 anos, com quase meio século de carreira, foi transformada em peça de troca numa mesa onde as cartas são marcadas. A pergunta que fica é simples: se as maiores democracias das Américas tratam seus diplomatas como reféns, quem ainda respeita as regras?
UOL/Painel político



