ArteMaranhão

Sereia da Ponta d’Areia: escultor Eduardo Sereno se inspira na filha para criar a obra

Conheça a história de afeto por trás da recriação poética da icônica da sereia da Ponta d'Areia, onde Eduardo Sereno imortalizou a filha como símbolo cultural.

SÃO LUÍS – Quem frequentou a orla de São Luís em outros tempos certamente ouviu histórias sobre a sereia que vigiava as águas da Ponta d’Areia. Perdida por décadas, a imagem finalmente retornou para Praça do Sol em janeiro deste ano. Mas quem olhar de perto notará um brilho diferente no olhar da nova guardiã: o autor da obra decidiu transformar a saudade coletiva em uma homenagem particular, esculpindo no rosto da sereia as feições de sua filha.

A escultura é de autoria do artista maranhense José Eduardo Sereno, conhecido como Sereno. Para ele, o desafio foi equilibrar o peso histórico do antigo monumento com uma visão artística atual, fugindo da ideia de uma simples réplica.

Gabrielle Sereno ao lado da Sereia da Ponta d’Areia. (Foto: Arquivo Pessoal)

“A atual sereia nasce como uma obra inédita. Não se trata de uma revitalização, mas de uma recriação poética. Ela respeita o passado, mas afirma um novo tempo”, destacou o artista.

A inspiração para o rosto da escultura veio de sua filha, Gabrielle Serenno, que acompanhou de perto o processo de criação. Bacharel em direito e empreendedora, ela conta que o sentimento inicial foi de surpresa, seguido por uma felicidade indescritível e gratidão eterna ao pai.

“Acompanhei parte do processo, pois foi necessário tirar o molde do rosto e usar fotos e vídeos”, recorda Gabrielle. Ela revela que essa tradição de afeto já faz parte do portfólio do pai: a estátua de Iemanjá, na Praia do Olho d’Água, também traz os traços de outra irmã. “Sou apaixonada pela nossa cultura e, após a homenagem, esse amor me aproximou ainda mais da cidade. A Praça do Sol agora é minha queridinha”, brinca.

Sobre o autor

José Eduardo Sereno é um escultor maranhense com reconhecimento nacional e internacional, com obras espalhadas pelo Brasil e pelo exterior. Também engenheiro civil e arte-educador, o artista integra conhecimento técnico e sensibilidade estética em suas criações, características presentes na nova sereia da Praça do Sol.

De acordo com Sereno, a nova sereia vai além da estética e carrega elementos simbólicos que representam a identidade local. A obra busca traduzir características associadas à mulher maranhense, como força, delicadeza e espiritualidade, estabelecendo um elo entre a cidade e o mar.

A Secretaria de Estado da Infraestrutura (Sinfra-MA) também destaca o papel simbólico da escultura dentro do projeto de revitalização da Praça do Sol. Segundo o órgão, a sereia foi estrategicamente posicionada entre a Passarela do Coco e a esplanada, com vista para o pôr do sol, assumindo a função de marco urbano e elemento estruturador da paisagem.

Ainda conforme a Sinfra, a concepção da obra prioriza o caráter democrático e inclusivo, permitindo o contato direto do público com a arte e reforçando o sentimento de pertencimento. Tradicionalmente associada à realização de desejos e à proteção, a figura contribui para fortalecer a memória coletiva e a identidade cultural de São Luís.

Antes da atual escultura, a Praça do Sol abrigou outra sereia que marcou gerações de ludovicenses. A obra foi criada pelo ex-frade italiano Luigi Dovera e foi inaugurada em 25 de setembro de 1983. No entanto, durante intervenções urbanas realizadas ainda na década de 1980, a escultura foi retirada do local e permaneceu desaparecida por mais de 30 anos.

(Reprodução/Redes Sociais)
(Reprodução/Redes Sociais)

O mistério teve um desfecho parcial em janeiro de 2019, quando a cauda do monumento ressurgiu na orla marítima. A outra parte da escultura nunca foi localizada, levantando indícios de que a obra tenha sido destruída. Apesar disso, a nova sereia mantém viva a memória da anterior, estabelecendo uma continuidade simbólica entre passado e presente.

Além da sereia, Luigi Dovera deixou outras contribuições importantes para a paisagem urbana de São Luís, como o Anjo do bairro Anjo da Guarda, o monumento a Luís Rei de França e o antigo Roque Santeiro, no bairro do Bequimão. O artista chegou ao Brasil na década de 1940, fugindo da Segunda Guerra Mundial, e consolidou sua trajetória no Maranhão.

A sereia que virou música

A presença da sereia no imaginário popular também foi eternizada na música maranhense. O clássico carnavalesco “Sereia”, conhecido pelo verso “Vem sereia, pra Ponta d’Areia”, foi composto por Carlos Gomes em parceria com o cantor e compositor Escrete. A canção fortaleceu a relação afetiva da população com o símbolo e contribuiu para manter viva sua presença na memória coletiva.

Entre o mito e a realidade

Para Gabrielle Sereno, a nova escultura não apenas resgata lembranças do passado, mas também cria novas conexões com as futuras gerações.

“Espero que as pessoas que conheceram a antiga sereia consigam resgatar boas lembranças e que aqueles que não a conheceram se apaixonem pela nova história e criem uma identidade maranhense com a atual sereia”, afirmou.

A sereia da Praça do Sol volta a fazer parte da paisagem de São Luís, unindo o passado de Luigi Dovera ao presente de Eduardo Sereno. Entre as canções de Carnaval e a revitalização da orla, o novo monumento fica como um registro da cultura local e, agora, de uma homenagem pessoal que saiu do ateliê para ganhar a cidade.

 

iMirante

 

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo