Quando a jocosidade e o deboche são o capital eleitoral mais valioso no Brasil
Partidos apelam à galhofa política através de personalidades públicas para alavancar seus candidatos e garantir mandato parlamentar, transformando a política eleitoral num verdadeiro circo da vergonha

Estamos a 5 meses das eleições mais importantes dos últimos anos, e os partidos correm para construir suas alianças em torno de seus candidatos afim de angariar força política. Neste universo de disputa eleitoral é natural que as legendas partidárias busquem a melhor estratégia de persuasão para alinhar as táticas que possam alcançar os objetivos traçados previamente. No entanto, é justamente no período eleitoral que assistimos o vexatório espetáculo dantesco dos candidatos bizarros e sem qualquer lastro de realizações ou experiência política expostos na prateleira eleitoral.
Estes são vulgarmente conhecidos como “puxadores de votos”, estrategicamente posicionados para atrair a atenção da população seja por causa da fama, da representação midiática ou até mesmo pelo apelo cômico que carregam em si. Os nomes são muitos e de diversas searas: música, entretenimento, futebol, literatura, influencers de rede social e até religioso. Nomes como Manoel Gomes (da música “caneta azul” e outros hits pavorosos), influenciadora fitness Gracyanne Barbosa, os ex-jogadores Edmundo e Luís Fabiano, escritor e psiquiatra Augusto Cury, a apresentadora Silvia Abravanel e outros compõem o leque do histrionismo vulgar populista que estão na disputa por cargos eletivos, tentando transformar a popularidade midiática e o sucesso nas redes em capital político.
É fácil de entender o porquê das siglas partidárias usarem deste expediente: estamos na era digital e este é o universo destes tais candidatos. Sendo assim, facilita o ganho de alcance dos partidos nas redes e, consequentemente, nas urnas. O apelo ao que é populesco, festivo e vulgarmente cômico reforça nas pessoas uma visão de que qualquer um tem a chance de ser candidato e ser eleito, pois democracia é isso. Para além desta superficialidade canhestra fato é que isto nada tem a ver com oportunidade, mas sim com estratégia eleitoral. De fato a democracia permite que qualquer pessoa se coloque como candidato a um cargo eletivo, mas isto não significa que não se deva ter seriedade para tal intento.
Fato é que tais figuras folclóricas são resultado do cenário político caótico de descrédito e confiabilidade que o país vive já há tempos. Estes candidatos puxadores de votos são eleitos em grande parte por causa do tal “voto de protesto”. São a materialização do deboche e do escárnio que nossa política se tornou, atingindo a qualidade de nossa representatividade e piorando as expectativas de melhoras futuras. Os políticos históricos que temos operando o Parlamento e o Executivo se consagraram como ineficientes, ou representantes do “mais do mesmo”.
Vale lembrar do atual deputado federal Tiririca (PSD-SP) que se elegeu como parlamentar federal em 2010 por causa de seu histrionismo popular cômico. O “palhaço” semianalfabeto que virou fenômeno de votos sem nunca ter tido qualquer experiência com política na vida, sem preparo para discussões mais profundas de assuntos fundamentais que conduzem o destino do país, como saúde, educação, infraestrutura, tecnologia, etc. Isto alimentou o descrédito e a perda na seriedade política brasileira.
Isto simboliza que nossa política ainda tem muito a amadurecer e que há uma verve marginal conduzindo as ações das legendas partidárias nestas investidas eleitorais para puxar os seus reais candidatos (já que não tem força popular para se elegerem). Portanto, precisam destes candidatos burlescos para conquistar os cargos eletivos e fortalecer seu partido. Esta é a característica mais vergonhosa de nossa política, pois configura que o deboche, a maledicência e a palhaçada ainda serão instrumentalizados para fins eleitorais por um bom tempo.



