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Master enviou R$ 494 mi para fundo controlado por offshore nas Ilhas Cayman

O Banco Master transferiu ao menos R$ 494 milhões para um fundo controlado por uma offshore nas Ilhas Cayman ligada a Daniel Vorcaro.

A cadeia inclui o Dublin Fundo de Investimento em Direitos Creditórios Não Padronizados (FIDC), a Jaguar Investments Horizon LLC, sediada nos Estados Unidos, e a Jaguar Multimarket Fund Ltd., fundo registrado nas Ilhas Cayman.

Segundo ação movida pelo liquidante do Master, o Dublin FIDC é integralmente detido pela Jaguar Horizon, que é 100% controlada pelo Jaguar Cayman.

O liquidante sustenta que Vorcaro estava nos dois extremos da operação: como controlador do banco que enviava os recursos ao fundo e como beneficiário final da estrutura que os recebia.

O liquidante também encontrou transferências do Fundo Máxima 2 —outro fundo do ecossistema do Master— diretamente à Jaguar Horizon, para suposta aquisição de ativos da Jaguar Cayman.

A empresa é diferente da Titan Capital Holding, também nas Ilhas Cayman, que, segundo relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) obtido pelo jornal O Globo, recebeu R$ 700 milhões de empresas ligadas a Vorcaro.

Ao todo, portanto, as duas empresas no paraíso fiscal receberam cerca de R$ 1,2 bilhão identificado até o momento.

As transferências ao Dublin foram feitas entre 2023 e 2025, a pretexto de aquisição de direitos creditórios. Quem as ordenava era Ascendino Madureira Garcia, o Dino Garcia, descrito na petição como operador financeiro de Vorcaro.

Funcionário da Master Corretora desde 2018, Ascendino foi alvo de busca na segunda fase da operação Compliance Zero, que mira o uso de fundos por Vorcaro para desviar dinheiro do Master.

Da Master Corretora, ele enviou instruções à tesouraria do Master determinando remessas à conta corrente do fundo Dublin.

Antes de ser contratado por Vorcaro, Dino Garcia trabalhava na própria Sefer Investimentos, administradora do Dublin.

Dino Garcia responde a um processo na Justiça por suspeita de organização criminosa, gestão fraudulenta e corrupção, crimes investigados após ter sido alvo da operação Fundo Fake, deflagrada em 2020 pela PF.

Além disso, em 2021, Dino Garcia foi denunciado pela PGR (Procuradoria-Geral da República) por envolvimento em um esquema de pagamento de propina da Odebrecht na Lava Jato, processo ainda em andamento. Sua defesa nega que ele tenha cometido irregularidades.

O advogado de Ascendino Madureira Garcia disse ao UOL que o empresário “não praticou, não determinou e não participou de qualquer ato ilícito”.

“A associação de seu nome à investigação é indevida e baseada em um grande equívoco. Decorre de erro grave de enquadramento, que será devidamente demonstrado nos autos, e corrigido no curso das investigações, com base em elementos técnicos objetivos e verificáveis.”.

A defesa de Vorcaro disse que não iria comentar.

Planejamento desde 2017
A arquitetura foi planejada antes de Vorcaro assumir o controle do banco.

Em novembro de 2017, Benjamim Botelho de Almeida —ex-diretor da Sefer Investimentos e também investigado— enviou a Vorcaro um email com um documento descrevendo uma estrutura chamada “Maxima Wealth Management”.

Era uma estrutura desenhada para movimentar ativos por meio de offshores e veículos norte-americanos, em benefício do banqueiro.

Dois meses depois, em janeiro de 2018, Antonio Carlos Freixo Júnior, diretor da Entre Investimentos e réu junto a Vorcaro em processo administrativo na CVM (Comissão de Valores Mobiliários) por operações fraudulentas no mercado de capitais, escreveu a Vorcaro sobre a criação do Jaguar Cayman.

Freixo Júnior também encaminhou uma fatura de constituição do fundo à Dartmouth International Services, empresa sediada nas Ilhas Virgens Britânicas especializada em estruturar empresas offshore.

Outro lado: em nota enviada à coluna, a Entre Investimentos afirma que os serviços prestados pela empresa e por seu controlador, Freixo Júnior, “sempre foram conduzidos de forma regular, dentro dos parâmetros legais e regulatórios, seguindo práticas de compliance, governança e controles compatíveis com o mercado financeiro”. Diz ainda que “o processo em trâmite perante a CVM está em andamento, sem decisão do colegiado sobre o mérito da acusação”.

Já Freixo Júnior afirma que “atuou exclusivamente na fase de constituição do Jaguar Multimarket Fund, não tendo conhecimento de que o referido fundo tenha sido utilizado para a prática de qualquer irregularidade” e informa não manter vínculo com o fundo desde abril de 2020.

Desvio para comprar jatinho
O liquidante do Master apontou também que Vorcaro desviou dinheiro do banco para comprar um jatinho Gulfstream G700 por R$ 538 milhões, um iate de R$ 35 milhões e um hotel de luxo, o Hotel Botanique, por R$ 100 milhões.

Hotel Botanique, localizado na região da Serra da Mantiqueira
Hotel Botanique, localizado na região da Serra da Mantiqueira

O Botanique está localizado na região da Serra da Mantiqueira, entre os municípios de Campos do Jordão, São Bento do Sapucaí e Santo Antônio do Pinhal, em São Paulo.

Os bens foram adquiridos pela empresa Domus Realty, que, por sua vez, recebeu dinheiro de uma cadeia de fundos de investimentos abastecidos pelo Master.

Créditos podres
O liquidante identificou também operações que beneficiaram o pai de Vorcaro, Henrique Moura Vorcaro, e sua irmã, Natalia Bueno Vorcaro Zettel, com falsos empréstimos e venda de carteira de créditos podres.

O Grupo Promed, conglomerado de planos de saúde de Minas Gerais controlado pelos dois, teria se capitalizado com Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) emitidas pelo banco do filho, que nunca foram pagas.

Quatro dessas CCBs, vendidas por empresas do Promed ao Master, somam R$ 105,9 milhões. Em 2022, esses créditos podres foram cedidos pelo Master ao Fundo Astralo 95, veículo de Daniel Vorcaro.

A mesma lógica se repete no Fundo City, também vinculado ao grupo. Empresas controladas por Henrique —a Simetria Planos de Saúde e a Benefício Intelectual, das quais detinha participação indireta de 80%— venderam créditos podres ao City por R$ 320 milhões, nos quais não houve nenhum retorno.

Os pedidos de protesto sobre os bens foram aceitos pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. A medida dá ciência a terceiros sobre a litigiosidade dos ativos, impedindo que eventuais compradores aleguem boa-fé.

A ação inclui pedido de notificação à CVM e à gestora Acura Gestora de Recursos, responsável hoje pela carteira do Dublin.

 

UOL

 

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